quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Duplo Silêncio (Lenda Judaica)


Dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador.
Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno.
Até que um dia, chegou a grande colheita.
Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos.
Cada um seguiu o seu rumo. À noite, já no leito, cansado da brava lida daqueles últimos dias, um deles pensou : "Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice.
Eles me ajudarão no fim da minha vida.
O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo.
Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu".
Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu.
Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando : "Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar.
As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter".
Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro.
O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer.
Na estrada escura e nebulosa daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente.
Olharam-se espantados.
Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção.
Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro.

Pássaro

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um tocador de violão
não pode cantar prosseguir
quando lhe acusam de estar mentindo
quer virar pássaro e voar no ar no ar
quer virar pássaro e sumir ir
quer virar pássaro e sumir!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sons da Floresta


Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande mestre, com o objetivo de prepará-lo para ser um grande governante.

Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever os sons da floresta.

Retornando ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever os sons de tudo aquilo que conseguira ouvir.

Disse o príncipe: "Mestre, pude ouvir o canto dos cucos, o roçar das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus".

Ao terminar o relato, o mestre pediu ao príncipe que retornasse à floresta para ouvir todos os sons possíveis. Apesar de intrigado, o jovem obedeceu. Seguiu pensando: "Acho que já escutei todos os sons da floresta".

Durante uma semana o rapaz permaneceu sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguiu distinguir nem um som novo, além dos sons mencionados ao mestre.

Então, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo que já ouvira antes. Quanto mais atenção prestava, mais claros os sons se tornavam.

Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: "Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse". E, sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo pacientemente. Queria ter certeza de que estava no caminho certo.

Quando retornou ao templo, o sábio mestre o aguardava. O mestre, então, lhe perguntou o que mais conseguira ouvir. O jovem foi logo dizendo:
- "Mestre, quando prestei mais atenção, pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do Sol aquecendo a Terra e da grama bebendo o orvalho da manhã".
O mestre sorriu seu discípulo estava pronto.

É difícil ouvir o inaudível. Ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas.

Um líder, um educador pode inspirar confiança à sua equipe, entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada pessoa. A morte de uma organização ou instituição começa quando aqueles que estão à frente, administrando, liderando ouvem apenas as palavras que saem da boca – sem mergulhar nas relações e ouvir sonhos e sentimentos.

É preciso ouvir o inaudível. O lado não mensurado, mas que tem valor. Pois é o lado humano... Lembrando que mesmo com tanta modernidade, atrás de uma máquina tem dois olhos, atrás de dois olhos tem um ser humano.
Regue as relações da sua vida para que sobrevivam a todas as estações da vida. Jesus tomou tempo escutando as pessoas de perto. Indo onde elas estavam.

O ser humano sonha com dias melhores. Ouvir é valorizar.

A partir de hoje reserve parte do dia para ouvir alguém. Há muitas formas de se fazer isso hoje. O ideal é escutar com atenção total olhando nos olhos, mas já ajuda responder um e-mail de forma pessoal, ligar para alguém.
Ao fazer isso, hoje, você será o maior beneficiado por – "simplesmente" – escutar alguém, partilhar sentimentos, valorizar o ser humano; afinal de contas, é isso que significa ser humano.

Por: Willian Lira Felício

Obrigado por...


Você costuma agradecer as pessoas? No dia a dia esse é um costume que já esta ficando meio de lado. E sempre causa espanto quando presenciamos alguém agindo de forma agradecida. Ser agradecido é quase um ato em extinção. As pessoas se emocionam diante de uma atitude de gratidão. Recebo alguns emails com histórias de gratidão e, nesta semana, me bateu um grande receio: Será que gratidão está virando história?

A questão começou a me incomodar. Comecei a lembrar das últimas cenas que presenciei nesse sentido. Claro que em momentos de formalidade os agradecimentos estão sempre lá. E começam sempre da mesma forma: Agradecendo a Deus em primeiro lugar, depois aos pais e assim aos demais: esposa, familiares, amigos e colaboradores por ordem de hierarquia...

Seriam esses agradecimentos apenas uma formalidade? Confesso que isso me fez pensar. No fim do ano de 2007 fui convidado por um grupo de formandos a falar em um culto ecumênico. No convite pude perceber que todos seguiam a formalidade dos agradecimentos, a Deus, aos familiares, amigos e professores.

Alguns agradeciam a todos e outros destacavam um ou outro grupo. Mas expressavam sua gratidão de forma documental em palavras. Depois, num segundo contato com eles, descobri que em sua maioria acreditavam que naquele momento todos deviam agradecer a Deus pela oportunidade concedida.

Naquela noite do culto, familiares e amigos se reuniram para a cerimônia de gratidão. O instante era de reconhecimento a Deus, não envolvia aspectos denominacionais; era um momento de agradecer a Deus a benção concedida.

Gratidão é um dom. Reconhecer o que foi oferecido, o presente recebido. Aquilo que foi doado. Fala-se muito no dom de doar. Mas oferecer, doar, estender a mão ou abrir mão é sem dúvida mais difícil. Envolve reflexões a respeito. O mérito de quem recebe ou sua necessidade.

Doar deve ser silencioso para não causar constrangimento e até seguir o conselho bíblico de que o que uma mão faz não é necessário que a outra tenha conhecimento. Mas, para dar exemplo, talvez doar venha a ser um ato mais público do que silencioso. Afinal doar carrega sobre si inúmeras complicações. Porque o doar pode ser material, afetivo, filantrópico...

Os órgãos públicos orientam que as doações devem seguir alguns padrões para que não se incentive atitudes de sanguessuga por parte dos beneficiados, quando se trata de doações materiais. O certo é que mesmo doar um sorriso, uma saudação ou um gesto de educação tem se tornado raro.

Claro que isso influencia de forma direta na questão do agradecer. Quanto menos se doa, menos se agradece. Como é estranho encontrar alguém que agradeça por coisas simples, pela atenção, por uma lembrança, uma ligação, uma palavra de conforto, um sorriso, um abraço, uma carona, um beijo, um ombro...

Olha, não estou falando aqui em agradecer por doação material, financeira nem mesmo o pão. Estou falando de agradecer pela amizade, pelo amor, pelo companheirismo, pelo ensino. É além da forma mecânica de agradecer pela paz, pela vida e saúde. É entender que no completar de um ano esse agradecimento é de uma graça já concedida. De um ano que apesar de tudo se completou com vida.

Estou dizendo que gratidão é dom. Todos podem agradecer e reconhecer. E esse dom é manifestação de amor.

Duas semanas depois do culto ecumênico fui convidado para o baile da formatura. Em poucas horas as pessoas estavam histéricas, alcoolizadas e escutei da boca de uma das formandas: “Me deixe beber, eu consegui, eu consegui, eu mereço beber...”
Já tinha visto aquele rosto. Mas ela não estava no culto na igreja. Ela não foi ao culto porque o namorado, um pastor de outra denominação que acredita que eles não devem misturar-se com outros grupos religiosos, julgou que não deveriam participar do culto de agradecimento por este ser ecumênico.

Agora, ela estava sendo repreendida pelo namorado por estar festejando alcoolizada. Instantes depois ela passou mal e foi levada da festa com as roupas sujas, vomitadas. O jovem pastor, à esta altura, estava bastante envergonhado e os familiares também.
Duas coisas me deixaram tristes naquela noite. Primeiro, queria ser solidário àquela moça, mas me lembrava das palavras dela: “eu consegui”. Quão longe estava isso de ser reconhecimento a Deus. Depois, fiquei triste por todos os outros. Agradeceram, sim, a Deus, mas, em seguida, comemoraram sem Ele.

A gratidão não pode ser mecânica. Tem que ser espontânea. Gratidão não pode ser formalidade, até por que Deus sabe aquilo que vai no coração de cada um de nós. O resultado de uma gratidão não verdadeira pode ser um testemunho publico de ingratidão.

Para a gratidão ser verdadeira, é preciso ser um exercício diário. Precisa de prática, por que a gratidão é fruto do reconhecimento e da lembrança. Se ganhar alguma coisa é um prazer, relembrar esses presentes da vida nos leva a um segundo prazer, o de agradecer. Gratidão sincera é agradável, é uma decisão pessoal e não coletiva. É sentir-se feliz pelo que foi recebido. Isso, a tal ponto de contar aos outros.

A alegria de receber alguma coisa é que gera a gratidão verdadeira. E não uma data, a finalização de uma conquista.

O sábado foi separado como dia de gratidão. Pela criação, pela libertação, pela semana. Não é um dia para lembrar a criação, ou para deixar de fazer alguma coisa pura e simplesmente. É preciso sentir prazer, alegria e felicidade nesse dia.

Quando alguém agradece revela o amor. O coração agradecido ou gesto de agradecimento e revelação da humildade, do reconhecimento, da alegria de ter recebido, a lembrança boa do acontecido, a felicidade do passado vivido, a doçura de olhar para o outro e lhe oferecer o obrigado.

Isso não é fazer média, bajular, corromper, ser complacente ou tentar comprar algo com um gesto novo. Pelo contrário, é um gozo de alegria que transborda na amizade e no amor.

Como é horrível conviver com pessoas que não sabem agradecer. E, infelizmente, sem querer ou perceber, podemos estar fazendo parte deste grupo e aumentando o “batalhão de ingratos”. Por falar nisso, você já demonstrou gratidão a Deus hoje? Já agradeceu aos familiares, aos amigos, aos bons colegas de trabalho ou vizinhos o simples fato de existirem e fazerem parte de sua vida?

Agradeço a Deus. Agradeço a você pela amizade. Um dia celebraremos esta amizade em uma festa. Obrigado por você existir! Obrigado por tudo que você fez por mim!
Por Willian Lira Felício

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Voltar para casa


Por: Willian Lira Felício

De forma clássica sempre nos pegamos perguntando para onde iremos ou o que será da nossa vida? Claro que a variedade de respostas costuma trazer inúmeras respostas. Muitos profissionais em diversas áreas costumam apresentar respostas prontas ou adaptá-las de alguma forma.

Mas se a pergunta fosse feita: qual a vontade de Deus para nossa vida? Charles Swindoll escreveu que a vontade de Deus para cada um de nós não é um alvo definido a ser alcançado, mas a jornada em si[1]... Atualmente vivemos um mundo cheio de fórmulas. Receitas para felicidade. As pessoas vivem em busca de respostas.

Como ser feliz. Como alcançar o casamento perfeito. Como ser um profissional de sucesso. Como ser o maior o vendedor do mundo. A receita de sucesso. Sendo um campeão nos negócios. Esse tipo de ajuda costuma ser pautado em fórmulas já definidas. Jogador de futebol sonhava com carro, depois apartamento, jogar na Europa e agora ficam por ai dizendo que precisam se sentir felizes para jogar. Não pode ser magoados.

Conhecer tudo e reter o que é bom segundo o apóstolo dos gentios deve ser uma tônica das pessoas. Syd Field o premiado roteirista do cinema americano disse não acreditar em fórmula e sim e forma[2]. Então existe uma fórmula certa de viver? Essa pergunta nos devolve a vontade de Deus para nossa vida. Deus sonha com um reencontro com o homem. E o homem com a forma de ser feliz.

Assim como o pai do chamado filho pródigo. O Pai celeste espera a volta de seus filhos ao lar. Ele aguarda ansioso que seus filhos retornem. A vontade primaria de Deus e poder estar junto de seus filhos e oferecer uma festa e apresentar com orgulho os seus herdeiros. No momento do reencontro o pai afirma: “Esse meu filho estava morto e reviveu”[3]. Morto? O rapaz chegou caminhando. Mas a história não esta errada. Jesus afirma ser o caminho, a verdade e a vida. Isso significa que podemos respirar e andar, falar e comer... Mas não podemos ser felizes, e nem afirmar que estamos vivos, repletos de vida. Existem caminhos que parecem ser bons aos homens, mas o fim destes é a morte.

Às vezes as circunstâncias da vida e os sonhos nos levam longe de casa daquilo que chamamos de lar. Fazem-nos abandonar a casa do pai. Saímos em busca dos nossos desejos. Viver longe de casa nos faz perder algumas coisas que nos identificam com o pai. Primeiro as escolhas das amizades. Longe de casa sentimos a necessidade estarmos com pessoas e nem sempre escolhemos as melhores que contraria a casa de nossos pais e a origem do que fomos ensinados. Sentimos-nos livres para fazer aquilo que antes não fazíamos por que na volta para casa encontraríamos mãe e pai sentados prontos para sessão, interrogatórios. Algumas dessas amizades superficiais que nos levam a experiências que não nos enriquecem e nem nos fazem crescer. O tempo revela que nossas escolhas não foram às melhores. Que erramos. O vazio, as ilusões, decepções, a tristeza e as lágrimas passam a ser um tormento diário. As pessoas que nos cercam nos usam como quem extrai o suco deixando bagaço. Longe de casa sentimos o abandono.

Mas não é essa a vontade do pai. Mas o pai não sai em busca do seu filho por amor, por que ele respeita as escolhas de seu filho, ele sabe que seu herdeiro não é uma ovelha que se perdeu, mas que escolheu. Cabe ao filho, aos filhos as lembranças de uma vida melhor. É preciso ser humilde aceitar que a casa do pai é porto seguro. Na história bíblica o rapaz em um momento de angustia retornou a sua casa depois da angustia, fome e desespero. Foi recebido pelo pai. Que o buscou ainda na estrada. O texto que pode ser encontrado na bíblia no livro de Lucas no capitulo 15. Mostra que não à condenação para aquele que esta em Cristo. O Jovem volta para casa de seu pai.

A vontade de Deus é que seus filhos possam retornar ao lar. Que habitem em sua presença. Jesus declarou que voltará depois que estiver tudo preparado para levar seus filhos. Rejeitar a oportunidade de retornar é mais que uma prova de orgulho. Mas e prova de rejeição da graça de Deus. O retorno está sempre no desejo de Deus. Alguns se sentem envergonhados e acham que retornar sem bens e títulos não é a melhor opção.

Em 2008 conheci uma moça que foi para Espanha em busca de sucesso. Em poucos meses descobriu que sua prima na verdade agenciava moças para sexo na cidade de Madri. Durante os primeiros meses enquanto ela ainda tinha dinheiro sua prima sempre esteve ao seu lado. Com o fim das economias ela percebeu mudança no tratamento. E sua prima começou a insinuar sobre seu fracasso na cidade, e sobre a necessidade real de uma renda. Em uma tarde o senhor vizinho de sua prima lhe disse que era para fugir que sua prima tinha a intenção de viciá-la para que ela se prostituisse. Ela fugiu ligou para sua mãe no interior de Minas Gerais depois de vagar por dois dias sem comer pelas ruas de Madri. Sua mãe conseguiu um empréstimo para buscá-la.

Correr atrás dos sonhos não esta errado. Mas muitas vezes é necessário admitir que a felicidade possa estar mais perto do que imaginamos. O rapaz da história contada por Jesus recordou que na casa de seu pai ele era mais feliz. Ele saiu de casa como um príncipe e voltava como um mendigo. Moisés poderia ser chamado de estrela da manhã. Mas abandonou os sonhos de ser parte da história terrena para servir a Deus[4]. A história do Egito poderia ter imortalizado aquele homem como um líder egípcio. Teria reconhecimento dos homens. Mas ele preferiu ser um servo de Deus. Voltou ao Egito como um camponês. Na corte foi apontado como um fracassado. Não virou Faraó, com pirâmide e tesouros. Mas a bíblia afirma que ele foi levado ao céu.

As duas histórias do filho pródigo e de Moíses revelam como o retorno pode ser importante, no fundo encontramos motivos diferentes.

É isso. Não vejo por que as pessoas ainda não acreditem que em alguns momentos precisam recuar. Voltar para casa pode ser o recomeço a vontade de Deus para sua vida. Se as pessoas olharem de forma atravessada. Cabe a você mostrar como valeu à pena. Se valeu a pena.
Ao sentir saudade de casa pode ser que tenha valido a pena descobrir a importância da família. Mas se a vergonha é uma tônica temo que não tenha valido.

Quando temos medo de voltar ou vergonha. Acredito que os valores estão errados. Essa coisa te que tenho que me realizar a qualquer preço. E egoísta isso sim me envergonharia. Lembre-se que você se encontra onde você lutou para estar. Você escolheu com acertos e erros. E continua em busca de se satisfazer. Satisfação pessoal não é o discurso do cristão. Esvaziar-se do eu é sim muito importante. Buscar ajuda com as pessoas que podemos confiar é muito importante. Pense nisso!

[1] Mistério da vontade de Deus. Charles Swindoll. Mundo Cristão
[2] Apud História das Histórias. Willian Lira Felício
[3] Lucas 15:24
[4] Êxodo primeiros capítulos.

História das Histórias - O anjo do sertão

A equipe de produção do Domingão do Faustão encontrou uma história exemplar! Neste início do ano, nada melhor do que conhecer a vida de um sertanejo que venceu na vida e hoje ajuda a quem precisa. Nerivaldo Lira Alves foi adotado quando criança, em Orobó, no sertão de Pernambuco. Com 11 anos convenceu o pai a vender a fazenda e com a parte dele montou uma quitanda, mostrando seu empreendedorismo precoce. Mas faliu e, com 14 anos, foi morar no Morro do Dendê, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, com a irmã.

Ele trabalhou como faxineiro e office boy, até que tentou o vestibular para advocacia. Formado, Nerivaldo virou um advogado de sucesso e hoje ele ajuda as pessoas do lugar de onde veio. Há quatro anos, ele criou uma ONG chamada Amigos do Sertão Nordestino, que já beneficiou oito mil crianças! Nerivaldo adotou as quatro escolas onde estudou e oferece atualização para os professores. Ele já gastou mais de 300 mil reais neste projeto, que também conta com biblioteca e cinema itinerante. “O brasileiro tem um potencial incrível. Eu quero transformar o coração das pessoas através da educação”, concluiu Nerivaldo.

http://tvglobo.domingaodofaustao.globo.com/programa/tag/derivaldo-alves/
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domingo, 27 de setembro de 2009

Eu Continuo Fiscal do Sarney


-Pequeno exercício de memória histórica atualizada-

Os da minha idade vão lembrar-se do botton aí ao lado. Pra quem não conhece, vou contar parte dessa história. Ela me veio à mente ao ler a notícia de que um deputado renunciou ao seu mandato após denúncias de que funcionários do Parlamento haviam promovido gastos indevidos com verbas públicas. Ele pessoalmente não estava envolvido, os funcionários sequer eram do seu gabinete, mas se declarou envergonhado com a situação e optou pela renúncia.

Pois é, o episódio acima aconteceu... na Inglaterra.

Como não existe pecado no lado de baixo do equador... aqui, pelas bandas do Brasil, o senador José Sarney, atual presidente do Senado, ex-presidente da República, ex-governador do Maranhão, presidente do partido que apoiava o governo militar à época da ditadura, membro da Academia Brasileira de Letras, patriarca de uma dinastia de poder e no poder, há 50 anos presente na história política do Brasil, vai à tribuna defender-se das acusações de, entre outras coisas, ter parentes e apaniguados na lista de beneficiados por “atos secretos”, medidas aprovadas e não publicadas, nos bastidores do Congresso Nacional. As denúncias têm nome, endereço e telefone.

Sarney, indignado, faz veemente discurso. Esclarece, explica, desmente tudo? Nada disso. A frase lapidar da sua fala é a seguinte: “O problema não é meu. O problema é do Senado!”.

Como assim? Para ele, o fato de ocupar pela terceira vez a presidência do mesmo Senado é apenas um detalhe? É problema dos outros?

Sabem de uma coisa, ele tem razão. Sarney está lá pelo voto popular. Ele e tantos outros “sarneys”, que há muito tempo desviam a riqueza do país para si e para os seus. E como Brasília fica muito longe do Brasil, as medidas para apurar denúncias que por lá abundam demoram a ser implementadas.
Esses “sarneys” estão pouco se lixando para a opinião pública. De vez em quando se permitem uma desculpa, uma justificativa, um gesto de quase humildade. Mas, dessa vez, a investigação tarda pois um dos possíveis responsáveis pela apuração, outro senador, está em licença médica. Fez, recentemente, uma cirurgia para redução de estômago.

Pena não haver uma cirurgia capaz de reduzir também a fome desse pessoal por dinheiro e poder. Ou, quem sabe, para aumentar o nosso estômago, facilitando a digestão dos sapos que somos obrigados, diariamente, a engolir.

Mas voltemos ao Sarney, que, na verdade, tem muitos nomes. E muito dinheiro. Políticos dessa espécie estão no poder há muito tempo. Quinhentos e nove anos, para ser mais preciso. O Sarney de cinco séculos chegou na caravela do Cabral. Aqui desembarcado, promoveu logo um primeiro ato político: com uma missa, tomou posse da ilha de Vera Cruz, em nome de Deus e do rei de Portugal. Fez o sermão. A platéia indígena, perplexa, via, ouvia e nada entendia. Como acontece até hoje.

Após o rito, o saque. A Ilha de Vera Cruz foi rebatizada. O Sarney daquela época dividiu a terra que virou um Brasil fatiado em capitanias hereditárias. Ah, o peso dessa palavra na nossa história; hereditária...

Lá estava Sarney que, servil, serviu a Portugal. Comeu das fartas sobras do poder, dos restos da mesa da corte, sonhando, um dia, sentar-se à cabeceira. Viu a colônia morrer e um império nascer, às margens plácidas do Ipiranga.

E veio a República, que já nasceu fardada, gostou do traje, o que fez brotar, de vez em quando, aqui e ali, um golpezinho, uma revolução, uma ditadura...

Sarney bateu continência a todos e todas. Fez-se presidente de uma tal ARENA, nome significativo para um país que se transformava em um novo coliseu – onde a liberdade era jogada aos leões.

Mas, de tanto usada, a faca, um dia, já não cortava. O golpe cansou de se reinventar. Caiu de podre. E quem estava lá para aproveitar a ocasião? Nosso Sarney atual. Chegava, enfim, sua vez de sentar-se à cabeceira da mesa do que ele chamou de Nova República.

O Poder, agora rebatizado de Mercado, mais uma vez deu as cartas. Sarney, como sempre, dava suas cartadas. Inventou um ministro, que inventou um plano mirabolante, congelou preços, confiscou bois no pasto e terminou convocando os “fiscais do Sarney”, nós, o povo, que nos esquecemos de fiscalizar a velha raposa.

Nada funcionou, a não ser as concessões de Rádio e TV que garantiram ao tarimbado político mais um ano de poder.

Até que, no último mês do seu desgoverno, Sarney saiu pela porta dos fundos do palácio. Deixava as prateleiras vazias e uma conta para o Brasil pagar: 84% de inflação ao mês!!!

Mas qual o que: outro Sarney o substituiu. Atendia pelo nome de Collor, que também inventou ministros, planos e confiscos. Nova estampa, velhos métodos. O novo Sarney, (que de novo só tinha o nome), mudava alguma coisa, para não mudar coisa nenhuma...

E assim caminha a Humanidade...

Será? É nossa herança e destino essa desesperança?

Socorro-me do apóstolo Paulo: “mesmo contra toda a esperança, esperei...”

E vou lhes dar as razões da minha esperança. Por incrível que pareça, acredito que estamos melhorando como civilização, como espécie. O bicho homem se faz, cada vez mais, homo sapiens.

Há pouco mais de 100 anos a cor da pele definia se alguém nascia livre ou escravo. A busca, então, era de abolicionistas, por liberdade. Hoje somos ecologistas, lutando por preservação e sustentabilidade.

O problema é que falamos tanto, jogamos holofote em tantos sarneys, que nos esquecemos que, na História, também houve um Gandhi, um Luther King, um Chico Mendes, gente que lutou por liberdade e direitos, que fez valer princípios como a desobediência civil e a não-violência ativa.

Ficamos tão marcados por esses parasitas insaciáveis que não saem das manchetes que não percebemos que em qualquer criança de seis anos, hoje, há um ser político em construção, capaz de praticar e exigir a prática de uma nova ética.

Há um futuro acontecendo. Estão cada mais ridículos os vândalos, os desonestos e outros idiotas. Os “sarneys” têm cada vez menos espaço para suas manobras. Ainda se movem, e como se movem, mas seus atos são cada vez menos secretos.

Desculpe essa minha mania de professor de ver, em tudo, a possibilidade de aprender e ensinar. A minha vergonha diante do discurso do Sarney me fez lembrar a vergonha do deputado inglês. Ele renunciou. Eu não. Entro agora na campanha eleitoral.

Renuncio à idiotice do “levar vantagem em tudo”, do “não tô nem aí”, refrão que já foi sucesso nas paradas musicais. Música por música prefiro parafrasear Jorge Ben Jor que cantava: “Se o Sarney soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem...”

Chega de sarneys. O tempo é outro. E a você que desanimou ou nem se animou, lembro uma palavra de Frei Betto:

“Os da minha geração imaginaram, por um momento, que a conquista dos sonhos de liberdade e dignidade coincidiriam com o nosso tempo histórico, o tempo da nossa vida. Hoje, perdi a esperança de fazer parte da colheita, mas não abro mão de morrer semente...”

Para quem é educador, semeador, o tempo da esperança se chama sempre.

Autor: Eduardo Machado

Há Vagas Para “Ninguéns” e “Guardiões de Histórias”!


Você certamente já ouviu falar no termo “carregador de piano”. Geralmente essa expressão que é atribuída aqueles funcionários que são sérios candidatos a funcionário padrão ou aquele sombra ou aliado que faz tudo sem ser visto. O nome dele é “Imprescindível de Ninguém”.

Todas as empresas, instituições e organizações possuem alguém dessa família numerosa, arrisco a dizer que é maior que a família Silva.

Indivíduos dessa família amam o que fazem e não se importam muito com os louros. Quando as coisas acontecem eles estão lá e nas comemorações e premiações nem sempre são lembrados. Mas a contribuição dada foi fundamental.

Eles não esperam reconhecimento; fazem sua parte e, na hora dos aplausos, já se foram – estão longe dos holofotes. Mas são absolutamente necessários.

Esse tipo de individuo muitas vezes carrega apenas seu sobrenome “Ninguém”, como entre os militares que são chamados pelo nome de família. Patrick Morley escreveu: “Deus gosta dos ninguéns afinal fez muito mais deles”.

Segundo Max Geringher essa pessoa é facilmente identificada. Ele é exatamente o que os outros não acham imprescindível, fundamental. É uma pessoa que raramente é convidada para participar de uma reunião.

Ele está tão ocupado com o que precisa ser feito que não utiliza seu tempo para ficar criando novos projetos. Enquanto alguns teóricos usam o tempo para criar novas estratégias, ele utiliza seu tempo fazendo com que as coisas funcionem na prática.

Às vezes ele passa o dia observando as mudanças, buscando em sua experiência referências para que as coisas funcionem; dali do seu canto já viu inúmeras mudanças e sabe que a chave está na implantação. E, com uma caneta meia-carga no bolso da camisa, ele contempla as reações de todos.

Ele nunca é convidado a opinar sobre um assunto importante, afinal ele é mais um instrumento na engrenagem. Assim, enquanto a empresa ferve a crise se aproxima o imprescindível ninguém fica frio.

Ele só sai de seu canto quando alguém revela que “ninguém” pode fazer mais nada. A empresa tem um enorme problema para resolver e buscou ajuda entre os mais renomados de seu setor.

Milhões de dados já foram levantados, centenas de cenários já foram considerados, estrategistas buscam soluções nas mais diversas teorias, dezenas de especialistas já foram consultados. Mas sempre falta uma informação para completar o quebra-cabeça. E aí o diretor perde a calma e diz: “Mas não é possível. Será que Ninguém sabe como resolver isso?” Quando a palavra mágica ecoa dentro da organização – “Ninguém” - alguém se lembra é o sobrenome do “Imprescindível”.

“Ninguém” é o que está escrito em seu crachá de identificação. Ele está a tanto tempo, que sabe tudo. Lembra de tudo. Participou de tudo. Mas, como nunca teve muita ambição, foi sendo esquecido. Como não usa termos complicados, nem palavras em inglês, é considerado ultrapassado.

Afinal ele sempre fez sua parte sem importar as luzes. Nem um quadrinho decente no organograma ele tem. Aos poucos, ele foi se tornando..., ninguém. Mas sempre chega àquela hora em que ninguém sabe. E aí o Imprescindível sai de sua sombra e dá a informação que todos estavam procurando.

E, enquanto todo mundo comemora, o Imprescindível já saiu de cena e está tomando seu café num copinho plástico, ou bebendo água no bebedouro sem tripudiar nem se vangloriar da nova conquista. O Imprescindível é assim não busca louvor próprio, tem senso de missão.

Ele não almeja ser alguém. Só quer fazer seu trabalho em paz, sem incomodar. E quando o diretor diz: “Nesta empresa, ninguém é imprescindível”, o imprescindível agradece. Porque sabe que, ali, ninguém é mais “Ninguém” que ele.

A história de João: um imprescindível

João foi preparado para trabalhar muito, mas foi orientado que um dia seu primo assumiria a missão e, nesse momento, ele não seria mais imprescindível.

Por esse motivo, seu trabalho deveria ser bem feito com zelo; era essencial para que as pessoas estivessem prontas para a chegada de seu primo. Ele não teria outra oportunidade. Ele trabalhou noite e dia, ensinou, advertiu, anunciou e guiou se envolveu ao máximo, vestiu a camisa.

Chegada a hora, seu primo assumiu o ministério e João, consciente que havia contribuído para esta hora decisiva, declarou: “Importa que Ele cresça e eu diminua”.

A disposição em contribuir sem buscar reconhecimento é muito rara. Mas João sabia que havia feito seu melhor. Isso me lembra da oração atribuída a São Francisco* em que ao olhar para trás o homem que andava sobre a areia vê duas pegadas.

Ao questionar, Cristo lhe responde: “Nos momentos mais difíceis te carreguei no colo e você não viu. Naquele momento fui Imprescindível”. Isaias escreve sobre essa cena no capitulo 41, verso 10 ao dizer que algumas vezes nos sustenta.

Este é um defeito humano grave: Não reconhecer a importância dos que carregam o piano de forma brilhante. No campus em que estudei, sempre conversei com os prestadores de serviço. Sei o nome deles até hoje. Via o sorriso deles e sabia que a limpeza e os serviços operacionais dependiam daquelas pessoas; portanto, o mínimo que cabia a mim era ser cordial com elas – reconhecendo a sua importância.

Muitos imprescindíveis trabalham para que alcancemos nossos objetivos. São colaboradores anônimos, professores, prestadores de serviço, familiares. Na empresa, eles estão lá silenciosos aguardando a senha para que venham ajudar.

Na vida, eles também existem e raramente são notados. Davi, no final de sua vida faz uma homenagem aos anônimos que o cercavam – valentes soldados que foram imprescindíveis durante sua vida. Homens que passariam despercebidos pela História se Davi, o salmista e rei, não tivesse mais este gesto de grandeza em reconhecer a importância de cada um destes seus colaboradores.

“São estes os nomes dos valentes de Davi: Josebe-Bassebete, o taquemonita; era este principal dos três; foi ele que, com a lança, matou oitocentos de uma vez.

Depois dele Eleazar, filho de Dodó, filho de Aoí, um dos três valentes que estavam com Davi, quando desafiaram os filisteus que se haviam reunido para a peleja, enquanto os homens de Israel se retiravam.

Este se levantou, e feriu os filisteus, até lhe cansar a mão e ficar pegada à espada; e naquele dia o Senhor operou um grande livramento; e o povo voltou para junto de Eleazar, somente para tomar o despojo.

Depois dele era Samá, filho de Agé, o hararita. Os filisteus se haviam ajuntado em Leí, onde havia um terreno cheio de lentilhas; e o povo fugiu de diante dos filisteus. Samá, porém, pondo-se no meio daquele terreno, defendeu-o e matou os filisteus, e o Senhor efetuou um grande livramento.

Também três dos trinta cabeças desceram, no tempo da sega, e foram ter com Davi, à caverna de Adulão; e a tropa dos filisteus acampara no vale de Refaim. Davi estava então no lugar forte, e a guarnição dos filisteus estava em Belém. E Davi, com saudade, exclamou: Quem me dera beber da água da cisterna que está junto a porta de Belém!

Então aqueles três valentes romperam pelo arraial dos filisteus, tiraram água da cisterna que está junto à porta de Belém, e a trouxeram a Davi; porém ele não quis bebê-la, mas derramou-a perante o Senhor; e disse: Longe de mim, ó Senhor, que eu tal faça! Beberia eu o sangue dos homens que foram com risco das suas vidas? De maneira que não a quis beber. Isto fizeram aqueles três valentes.

Ora, Abisai, irmão de Joabe, filho de Zeruia, era chefe dos trinta; e este alçou a sua lança contra trezentos, e os matou, e tinha nome entre os três. Porventura não era este o mais nobre dentre os trinta? Portanto se tornou o chefe deles; porém aos primeiros três não chegou.

Também Benaías, filho de Jeoiada, filho dum homem de Cabzeel, valoroso e de grandes feitos, matou os dois filhos de Ariel de Moabe; depois desceu, e matou um leão dentro duma cova, no tempo da neve. Matou também um egípcio, homem de temível aspecto; tinha este uma lança na mão, mas Benaías desceu a ele com um cajado, arrancou-lhe da mão a lança, e com ela o matou.

Estas coisas fez Benaías, filho de Jeoiada, pelo que teve nome entre os três valentes. Dentre os trinta ele era o mais afamado, porém aos três primeiros não chegou. Mas Davi o pôs sobre os seus guardas” (II Samuel 23:8 a 23).

Onde está o “Imprescindível”?

Charles Swindoll escreve em seu livro “Eu, Um Servo?” a história do “Guardião das Águas”, um tranqüilo guarda florestal que morava próximo a uma cidadezinha da Áustria, na encosta oriental dos Alpes.

O velho havia sido contratado peloprefeito da cidade, havia alguns anos, para manter livre de restolhos a nascente de água que brotava da montanha, e que corria para a fonte que abastecia o lugar.

E, com fiel e silenciosa regularidade, ele vagava pelos montes, removendo folhas e galhos caídos, e raspava o limo ali sedimentado que poderia contaminar a água.

Com o passar do tempo, aquela povoação tornou-se um centro de atração turística. Cisnes grandiosos nadavam no riozinho cristalino, e as rodas de moinho localizadas perto das águas giravam dia e noite, as terras cultivadas eram irrigadas naturalmente, e a vista que se tinha dos restaurantes era muito pitoresca, quase indescritível.

Passaram-se os anos. Uma noite, os membros da Câmara Municipal se reuniram; ao examinarem o orçamento, um deles teve seu olhar atraído para o salário que estava sendo pago ao obscuro guardião das águas.
- Quem é esse velho? - indagou o responsável pela bolsa - Por que o mantemos nesse serviço esses anos todos?

Ninguém o vê. Até onde sabemos esse estranho mateiro não nos presta nenhum serviço. Ele não nos é mais necessário. E, por votação unânime, dispensaram os serviços do velho.

Nas primeiras semanas que se seguiram, as coisas não mudaram nada. Mas, no início do outono, as folhas das árvores começaram a cair. Pequenos ramos se quebravam e caíram sobre as fontes, dificultando o curso daquelas águas cristalinas.

Certa tarde, alguém notou nas águas um colorido ligeiramente escuro. Mais alguns dias, e as águas já se mostravam mais escura. Passada outra semana, viam-se películas de impurezas boiando no rio, ao longo das margens, e um odor infecto era sentido nele.

As rodas do moinho giravam mais lentamente, e algumas até haviam parado. Os cisnes desapareceram; foram-se os turistas. As garras pegajosas das doenças e moléstias estenderam-se por toda a cidade. As pessoas começaram a reclamar umas com as outras.

Imediatamente, a câmara administrativa convocou uma reunião especial. Compreendendo seu grande erro, readmitiram o velho guardião das águas... E dentro de poucas semanas, aquele verdadeiro rio da vida começava a purificar-se. As rodas voltaram a girar, e uma nova vida recomeçou naquele povoado alpino.

Embora esta história pareça fantasiosa, o fato é que não se trata de um simples conto. Contém uma analogia vívida e muito significativa com os tempos em que vivemos.

O papel que aquele guardião das águas tinha para a cidade é o mesmo que o verdadeiro servo cristão representa para o mundo. Ele é a pitada de sal, que preserva e dá sabor. Ou a luz que ilumina o caminho dos demais, em meio aos caminhos da vida. E que Deus tenha piedade da sociedade que resolver existir sem eles!

Porque a cidade, a empresa, a instituição e a organização que fica sem o “Guardião das Águas” o “Imprescindível” pode estar abrindo mão não só de seu carregador de piano, mas de seu arquivo humano, de sua própria história.

Aquele que, na verdade, é o “Guardião das histórias” que sabe como ninguém olhar com esperança e trazer soluções. Desde os tempos remotos em todas as culturas esse silencioso e imprescindível guardião esteve presente. Repassando os ensinos de forma oral, escrita e mais recentemente com diversidade técnica e tecnológica.

Bem perto de você deve haver um guardião assim das histórias um “Ninguém” que pode narrar as histórias e orientar nos momentos de crise.

Se você descobrir um desses seres especiais, busque aprender com ele; afinal, o mundo precisa de prosa, tempero e luz. E pessoas assim, que não buscam brilho próprio, podem temperar a sua vida e a das demais pessoas; afinal, o sabor é mesmo
imprescindível e a vida precisa disso. Pense nisso, ainda há vagas para “sal”, “lamparinas” e “Ninguéns”.


Autor: Willian L. Felício, Publicitário e Colunista IASD Em Foco

willianfelicio@yahoo.com.br

sábado, 26 de setembro de 2009

Os intocáveis


Ao lado do caixa, na padaria, a manchete de primeira página do jornal de domingo grita
em letras garrafais:
Igreja quer impedir eleição de corruptos! Na fila, alguém comenta: que ingenuidade... E diz mais: no Brasil, todo mundo rouba. Até as Igrejas!

A fila ri, aparentemente concordando. Penso em responder, em comentar o comentário, mas desisto. A manhã de domingo está tão bonita, o pão quentinho, o café da manhã à minha espera. Deixa a indignação cívica pra lá...

Mas no caminho de volta para casa vou pensando no significado daquelas palavras. No meu coração de educador a desanimadora sensação de fracasso. Estão mesmo conseguindo roubar um dos nossos bens mais preciosos: a esperança. Pior: estão nos convencendo de que o honesto é apenas um larápio que ainda não teve sua oportunidade. O sorriso cúmplice das pessoas na fila parecia confirmar isso. O pão, assim como meu espírito, esfria rapidamente e a manhã de domingo me parece, agora, cinzenta e triste.

Já em casa, coloco o jornal ao lado do DVD “Os intocáveis”, que assisti na noite passada e separei para devolver à locadora. O filme é de 1987. Nele o diretor Brian de Palma conseguiu aliar um elenco de primeira grandeza, onde se destacam Robert de Niro, Sean Connery, Kevin Kostner e Andy Garcia, só para citar os mais conhecidos, a uma impressionante reconstrução da Chicago dos anos 30, um roteiro ágil (baseado em fatos reais) e muito apuro técnico, para colocar nas telas a saga de Eliot Ness, o agente federal que conseguiu colocar Al Capone atrás das grades.

A história já tinha sido um seriado de TV de grande sucesso no início dos anos 60, enquanto a versão cinematográfica figura nas melhores listas de filmes sobre a Máfia, ao lado de outras obras importantes do gênero, como “Era Uma Vez na América”, “Os Bons Companheiros” e a insuperável a trilogia “O Poderoso Chefão”.

O jornal, o filme, a fila, o riso da platéia, o café esfriando na mesa...
Outro “filme” vem à lembrança; um ator canastrão discursa na tribuna: “a crise não é minha (diz o senador Sarney), é do Senado”. Noutra cena, o deputado por Minas Gerais, Edmar Moreira, é julgado e absolvido pelo Conselho de Ética (?) da Câmara Federal, da acusação de mau uso da verba indenizatória.

Sarney tenta boiar no mar de lama dos atos secretos e Edmar justificava as despesas da tal verba através de gastos com segurança, apresentando notas fiscais de sua própria empresa.
Mas o deputado mineiro ficou famoso, mesmo, por ser proprietário de um castelo avaliado em R$ 25 milhões, no município de São João Nepomuceno (MG), devidamente não declarado em seu imposto de renda. O senador Sarney é mais modesto. É proprietário apenas do Maranhão e do Amapá.

Filme e realidade fundem-se definitivamente e já não consigo separar uma coisa da outra. Estou na platéia do julgamento onde Al Capone é acusado de fraudes fiscais, ou seja, omitir informações ao Imposto de Renda.

No banco dos réus o gangster boceja, impaciente para que termine logo aquele circo. Está pouco se lixando para o juiz, o júri, a imprensa. Tem mais o que fazer, ou roubar, ou matar...
Num lance que não vou contar aqui (pegue o filme numa locadora), Eliot Ness leva o juiz a trocar o corpo de jurados. Al Capone é condenado a onze anos de prisão.

Edmar Moreira também mostrava enfado com o circo montado no Conselho de Ética. Um dos seus colegas, indicado como relator do processo, já declarara que estava pouco se lixando com a postura investigativa da imprensa e da opinião pública em geral. Sarney pouco se lixa há mais de 50 anos. Serão os nossos intocáveis...?

O filme reaquece minha esperança e inspira a ir além. Afinal, é a história de um agente federal incorruptível, idealista e aparentemente destinado ao fracasso, que junta um grupo formado por um tira novato, um contabilista desajeitado e um policial em fim de carreira, com o objetivo de derrubar o poderoso Capone. E conseguem, não sem muito sangue, suor e lágrimas.

Tudo isso se mistura, enfim, em meu coração e minha mente por causa de um fato aparentemente banal. Essa semana estive no aeroporto de Confins para buscar meu aparelho celular que havia perdido, em maio, no aeroporto de Salvador. Caiu do meu bolso enquanto aguardava o embarque. Dei falta dele quando cheguei a BH. Liguei para o próprio e fui atendido por alguém que se identificou pelo raro nome (ou sobrenome) de Capironga. Disse que o aparelho fora encontrado por uma funcionária da limpeza, Sílvia, que o entregou no balcão da Infraero.

Resumindo: de maio até agora o celular passou por diversas mãos e chegou, incólume, às do seu dono, no caso, eu mesmo.

Sílvia, Capironga, Jaguaraci e outros, foram meus Eliot Ness tupiniquins. Com naturalidade, fizeram aquilo que é natural. Devolveram um objeto perdido ao seu dono. Não foram condecorados e nem mereceriam registro, não fosse essa crônica de limitado alcance. Mas faço questão de contar esse pequeno episódio que ilustra a minha esperança. Ela continua intocável.

Por ela, exponho a honestidade anônima desses brasileiros comuns às excelências de Brasília, aos desanimados da fila. Não posso me calar, nem me conformar. Na minha cívica ingenuidade, acredito que a maioria das pessoas ainda vive num mundo em que valores como ética, respeito ao bem comum, dignidade, são regras de conduta que norteiam a vida e nos colocam no rumo de um mundo e um tempo de seres humanos melhores.

Sessenta anos atrás, um outro ingênuo, Martim Luther King dizia num discurso:
“Estamos numa encruzilhada da História. Os anos que virão irão dizer das nossas escolhas, da nossa coragem em fazer o que precisa ser feito. E a História não vai nos cobrar pelas previsíveis palavras e ações dos filhos das trevas, mas pelo surpreendente silêncio e pela omissão dos filhos da luz”.
Com a palavra a fila do pão e os senadores Pedro Simon, Eduardo Suplicy e... (quem mais...?) Na Câmara Federal, os deputados.......... me ajudem, por favor...

Eduardo Machado

O velho, o rapaz e bíblia.


Fico feliz quando vejo as pessoas sem medo de ler a bíblia. Hoje em dia é comum vermos pessoas andando com a bíblia a tiracolo. Mas não é tão comum vê-las lendo o livro sagrado dos cristãos.

Quando muito temos notícias de pessoas que até lêem, mas o fazem para advogar em beneficio próprio. Alguém declarou que hoje se anda muito com a bíblia sobre o peito, mas é raro encontra aqueles que a levam dentro do coração. Vejo ainda muitos que colocam como base para defender suas próprias teorias e outros que em nome da ciência acham que a bíblia é um livro ultrapassado.

Um senhor de 70 anos viajava de trem tendo ao seu lado um jovem universitário, que lia o seu livro de ciências. O senhor, por sua vez, lia um livro de capa preta. Foi quando o jovem percebeu que se tratava da Bíblia, e estava aberta no livro de Marcos. Sem muita cerimônia o jovem interrompeu a leitura do velho e perguntou:

- O senhor ainda acredita neste livro cheio de fábulas e crendices?

- Sim. Mas não é um livro de crendices é a Palavra de Deus. Estou errado?

- Claro que está! Creio que o senhor deveria estudar a história geral. Veria que a Revolução Francesa, ocorrida há mais de 100 anos, mostrou a miopia da religião. Somente pessoas sem cultura ainda crêem que Deus criou o mundo em seis dias. O senhor deveria conhecer um pouco mais sobre o que os cientistas dizem sobre isso.

- É mesmo? E o que dizem os cientistas sobre a Bíblia? O rapaz iniciou um discurso que mostrava como a bíblia não tinha valor para ciência. Como as histórias eram fruto de pessoas de baixo nível cultural. O velho ouvia atentamente sem questionar ou defender sua posição. A viagem correu dessa forma o rapaz falando de teorias cientificas que explicavam o mundo. Aproximando da estação o rapaz falou.
- Bem, respondeu o universitário, vou descer na próxima estação, mas deixe o seu cartão que eu lhe enviarei o material pelo correio.

O velho então, cuidadosamente, abriu o bolso interno do paletó, e deu o cartão ao universitário. Quando o jovem leu o que estava escrito saiu cabisbaixo se sentindo pior que uma ameba. O cartão dizia: "Louis Pasteur, Diretor do Instituto de Pesquisas Científicas da École Normale de Paris". Pense nisso.

Por Willian Lira Felicio

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Rei Nu


Hans Christian Andersen foi um dinamarquês que gostava de contar estórias para grandes e pequenos. Todos conhecem a estória do Patinho Feio. Imagino que ele a inventou para consolar um menino feio, sem amigos, motivo de zombaria. Contou também a estória de uma menininha que, numa véspera de Natal, a neve caindo, tentava vender fósforos numa esquina da cidade. Ninguém parava. Ninguém comprava. Todos caminhavam apressados para suas casas onde havia uma lareira acesa, o vinho, a ceia e os presentes os esperavam. Todos queriam celebrar o nascimento de Jesus. É uma estória triste. De manhã a menininha estava morta na calçada, gelada pelo frio. É uma estória bem brasileira: não temos menininhas vendendo fósforos sob a neve que cai mas temos muitas crianças, adolescentes e velhos vendendo balas de goma nos semáforos. Eu também gosto de inventar estórias. E tenho prazer especial em re-contar estórias conhecidas dando-lhes um fim diferente.

Algumas das estórias de Hans Christian Andersen estão cheias de humor e ironia, como aquela do rei vaidoso que gostava de se vestir elegantemente. Vou recontar esta estória com dois finais: o dele e o meu.

“Havia um rei muito tolo que adorava roupas bonitas. Os tolos, geralmente, gostam de roupas bonitas. Pois esse rei enviava emissários por todo o país com a missão de comprar roupas diferentes. Era o melhor cliente da Daslu. Os seus guarda-roupas estavam entulhados com ternos, sapatos, gravatas de todas as cores e estilos. Eram tantas as suas roupas que ele estava muito triste porque seus emissários já não encontravam novidades.

Dois espertalhões ouviram falar do gosto do rei pelas roupas e viram nisso uma oportunidade de se enriquecerem às custas da vaidade da Majestade. A vaidade torna bobas as pessoas: elas passam a acreditar nos elogios dos bajuladores... Foi isso que aconteceu com um corvo vaidoso que estava pousado no galho de uma árvore com um queijo na boca: por acreditar nos elogios da raposa ficou sem queijo...

Pois os dois espertalhões-raposa foram até o palácio real e anunciaram-se na portaria, apresentando o seu cartão de visitas: “Doutor Severino e Doutor Valério, especialistas em tecidos mágicos.”
O rei já havia ouvido falar de tecidos de todos os tipos mas nunca ouvira falar de tecidos mágicos. Ficou curioso. Ordenou que os dois fossem trazidos à sua presença. Diante do rei fizeram uma profunda barretada, tirando seus chapéus.


“Falem-me sobre o tecido mágico”, ordenou o rei.
Um dos espertalhões, o mais loquaz, se pôs a falar.

“Majestade, diferente de todos os tecidos comuns, o tecido que nós tecemos é mágico porque somente as pessoas inteligentes podem vê-lo. Vestindo um terno feito com esse tecido Vossa Majestade será cercado apenas por pessoas inteligentes, pois somente elas o verão...”

O rei ficou encantado e imediatamente contratou os dois espertalhões, oferecendo-lhes um amplo aposento onde poderiam montar os seus teares e e tecer o tecido que só os inteligentes poderiam ver..

Passados alguns dias o rei mandou chamar o ministro da educação e ordenou-lhe que fosse examinar o tecido. O ministro dirigiu-se ao aposento onde os tecelões estavam trabalhando.

“Veja, excelência, a beleza do tecido”, disseram eles com a mãos estendidas. O ministro da educação não viu coisa alguma e entrou em pânico. “Meu Deus, eu não vejo o tecido, logo sou burro...” Resolveu, então, fazer de contas que era inteligente e começou a elogiar o tecido como sendo o mais belo que havia visto.


“Majestade”, relatou o minsitro da educação ao rei, “o tecido é incomparável, maravilhoso. De fato os tecelões são verdadeiras magos!” O rei ficou muito feliz.
Passados mais dois dias ele convocou o ministro da guerra e ordenou-lhe que examinasse o tecido. Aconteceu a mesma coisa. Ele não viu coisa alguma. “ Meu Deus”, ele disse, “ não sou inteligente. O ministro da educação viu e eu não estou vendo...” Resolveu adotar a mesma tática do ministro da educação e fez de contas que estava vendo. O rei ficou muito feliz com a seu relatório. E assim aconteceu com todos os outros ministros. Até que o rei resolveu pessoalmente ver o tecido maravilhoso. Mas, como os ministros, ele não viu coisa alguma porque nada havia para ser visto. Aí ele pensou: “Os ministros da educação, da guerra, das finanças, da cultura, das comunicações viram. São inteligentes. Mas eu não vejo nada! Sou burro. Não posso deixar que eles saibam da minha burrice porque pode ser que tal conhecimento venha a desestabilizar o meu governo...” O rei, então, entregou-se a elogios entusiasmados ao tecido que não havia.

O cerimonial do palácio determinou então que deveria haver uma grande festa para que todos vissem o rei em suas novas roupas. E todos ficaram sabendo que somente os inteligentes as veriam. A mídia, televisão e jornais, convidaram todos os cidadãos inteligentes a que comparecessem à solenidade.

No Dia da Pátria, a cidade engalanada, bandeiras por todos os lados, bandas de música, as


ruas cheias, tocaram os clarins e ouviu-se uma voz pelos alto-falantes:
“Cidadãos do nosso país! Dentro de poucos instantes a sua inteligência será colocada à prova. O rei vai desfilar usando a roupa que só os inteligentes podem ver.”

Canhões dispararam uma salva de seis tiros. Ruflaram os tambores. Abriram-se os portões do palácio e o rei marchou vestido com a sua roupa nova.

Foi aquele oh! de espanto. Todos ficaram maravilhados. Como era linda a roupa do rei! Todos eram inteligentes.

No alto de uma árvore estava encarapitado um menino a quem não haviam explicado as propriedades mágicas da roupa do rei. Ele olhou, não viu roupa nenhuma, viu o rei pelado exibindo sua enorme barriga, suas nádegas murchas e vergonhas dependuradas. Ficou horrorizado e não se conteve. Deu um grito que a multidão inteira ouviu: “O rei está pelado!”

Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. E uma gargalhada mais ruidosa que a salva de artilharia. Todos gritavam enquanto riam: “ O rei está nu, o rei está nu...”


O rei tratou de tapar as vergonhas com as mãos e voltou correndo para dentro do palácio.
Quanto aos espertalhões, já estavam longe e haviam transferido os milhões que haviam ganho para um paraíso fiscal...”


Não foi bem assim que Hans Christian Andersen contou a estória. Eu introduzi uns floreados para torná-la mais atual. Agora vou contar a mesma estória com um fim diferente. Ela é em tudo igual à versão de Andersen, até o momento do grito do menino.
“O rei está pelado!


Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. Seguido pelo grito enfurecido da multidão.
“Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É um subversivo, a serviço das elites!”

Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força e o internaram num manicômio.

Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É doido.

Rubem Alves - (Correio Popular, 11/09/2005)

A História das Histórias – Judas o último encontro com um amigo.


Judas, de todos os homens da bíblia esse é o que carrega sobre si o legado mais trágico. É provável que seu nome tenha origem em duas variações: Judas proveniente de Judá (louvor) e Iscariotes uma variação Ish Kerioth, ou seja, homem de Queriote, um vilarejo na região de Hebron. Se Judas é proveniente da Judéia isso facilita e muito compreender por que suas qualificações estão acima dos demais apóstolos.
Durante anos muitas perguntas foram feitas em relação a Judas. Por que Jesus o aceitou como discípulo? Por que ele traiu Jesus? O que ele sentiu depois de seu ato de traição?

Não existem respostas nesse sentido. Existem suposições, escritores, teólogos, historiadores e religiosos respondem essas perguntas. Na verdade não tenho a pretensão de trazer a tona nenhuma teoria nova. Ao olhar para história de Judas seguindo as teorias já existentes algumas situações me soltam aos olhos. O senso comum diz que alguns fatos sobre o discípulo não são passiveis de discussão ou debate.

1 – Ele reconheceu Jesus como o Messias.
2 – Judas era um dos doze.
3 – Ele viveu, andou, presenciou e escutou Jesus por três anos, ensinando, curando e fazendo maravilhas.
4 – Foi um ato com implicações graves entregar Jesus aos que o perseguiam.

1 – Ele reconheceu Jesus como o Messias.

Naquela época o povo de Israel esperava um Messias. Mas o titulo tinha implicações políticas. A história do povo de Israel tinha momentos de libertação. A libertação do Egito, da Pérsia, e agora vivendo sob o julgo romano. Eles esperavam um libertador. Que daria a eles novamente a condição de povo livre. André no capitulo 1 do evangelho de João corre para casa levou Pedro a Jesus por que acreditava ter encontrado o Messias. Sendo Judas oriundo da tribo de Judá ele conhecia a profecia sobre Jesus. E assim que reconheceu colocou-se a disposição de Cristo.

2 – Judas era um dos doze.

Quanto a esse ponto nos não temos nenhuma duvida. Judas Iscariotes dessa forma aparece assinalado na bíblia por 6 vezes. É interessante que Judas é sempre registrado como traidor mesmo antes do fato ter acontecido. Mateus 10:4, Marcos 3:19, Lucas 6:16 e João 12:4 em todos esses texto ele é identificado como aquele que havia de trair. Agora já era fato consumado ele não tinha como se defender. Os outros dois textos revelam o momento em que ele saiu para encontra com os sacerdotes.


3 – Ele viveu, andou, presenciou e escutou Jesus por três anos, ensinando, curando e fazendo maravilhas.

Judas passa três anos seguindo Jesus praticamente em silêncio. E mesmo assim ele é o responsável pelas finanças, é o tesoureiro. Isso não só nos revela sobre sua capacidade em administrar, mas também na forma como ele tinha destaque dentro do grupo. Não existia um secretário, um relações públicas ou diretor de qualquer coisa. Mas Judas tinha uma função era o Tesoureiro. Mas por que a necessidade de um tesoureiro?
Com o convite de Jesus os discípulos deixaram tudo que tinham. Emprego, família e demais bens, eles passaram a viver de donativos e ofertas que recebiam de corações generosos. Com o crescimento desses donativos surgiu a necessidade de se escolher alguém dentre os doze que assumisse a responsabilidade de administrar. Embora Mateus fosse um homem que trabalhasse como coletor de impostos pode-se entender que Judas também apresentou capacidade para tal.
É fato que Judas era homem ambicioso. E queria sim como Pedro, Tiago, João e André estar em posição de destaque no reino de Deus. Judas viu que as pessoas seguiam Jesus. Que elas eram atraídas por ele. O que ele não entendia como Jesus sendo um rei falava tanto em servir. Isso é uma dificuldade inteiramente humana. Moíses errou quando faz ao seu modo, Caim da mesma forma. E a lista é grande, certamente que eu e você podemos ser incluídos. Alguns acham que o mérito na vida está em ser parte do aquário ou amigo de peixes grandes. Isso é quase uma regra. Mas pasmem no dia do juízo também seremos julgados dessa forma. Por quem conhecemos e pela forma que conhecemos. Judas achou que conhecia Jesus e resolveu envolve-lo em seus planos. Submeta seus planos a Deus. Durante parte daqueles três anos ele pensou inúmeras vezes sobre a capacidade que Jesus tinha de atrair as pessoas. Mas nunca foi conversar com Jesus sobre isso.

4 – Foi um ato com implicações graves entregar Jesus aos que o perseguiam.

A traição o ato. Essa atitude transforma Judas no grande traidor. Aquele que segundo a tradição cristã deve ser queimado e malhado. Um ano antes da morte em Jerusalém João no capitulo 6 versos 70 e 71 de seu evangelho nos escreve: Respondeu-lhes Jesus: “Não vos escolhi a vós os doze? Contudo um de vós é o diabo. Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes; porque era ele o que o havia de entregar, sendo um dos doze”. As palavras de Jesus servem para que as pessoas possam ser alertadas. Pedro também em Mateus 16:23 foi chamado de Satanás.

E quando Jesus menciona que seria traído por deles. Eles não apontaram para Judas em coro e o chamaram de traidor. Não fizeram por que não tinham certeza. Quando Judas falou do desperdício ele fez menção por que os outros estavam dispostos a escutar. Eles não repreenderam. Eles o escutavam. Judas era um líder entre eles. Se Jesus tivesse fundado um igreja ele era o único que tinha uma função.

Ellen White escreve no Desejado de todas as nações pg 534 “Judas era altamente considerado pelos discípulos, e exercia sobre eles grande influência” – e na página anterior ela escreve – “Houvesse Judas morrido antes de sua última viagem a Jerusalém, e teria sido considerado digno de um lugar entre os doze, e cuja falta muito se faria sentir”.

Apesar do conflito interno de Judas, Jesus nunca o desmascarou perante seus companheiros.
Judas era um verdadeiro Cristão, certo? Errado.
Judas era um verdadeiro Crente, certo? Certo.

Compromisso de Judas era igual ao de muito crente de hoje. Voluntário e de boca. Tem gente que dedica o sábado todo para Jesus. Mas os outros seis dias! E sempre que é cobrado tem como resposta – que afinal é obrigação do pastor ou de outro irmão afinal sou voluntário. Estar associado a Jesus não é o mesmo que estar comprometido.

Para os que olham de fora Judas parecia ser um seguidor de Cristo. Mas ele estava ali como todos, envolvidos sim, mas comprometidos, não. Cuidado é possível estar profundamente envolvido com um ministério cristão, aprender a linguagem adequada, ter função na igreja, vestir-se adequadamente e ainda assim estar perdido.

Judas

Judas estava envolvido. Ao olhar para os lados ele tinha satisfação de ocupar uma posição de destaque. Era aos seus olhos o mais digno. Ainda na pg 534 Ellen White escreve: “Assim passava Judas em revista todos os discípulos, e lisongeava-se de que a igreja se veria muitas vezes em perplexidade e apuros, não fôra sua habilidade como administrador”... e ... “era em sua própria estima, uma honra para causa”.

Alguns autores relatam que dado sua capacidade Judas provavelmente tinha entrada garantida nas rodas sociais. E talvez por isso o seu acesso a Caífas tenha sido tranqüilo. Por ser tão diferente não foi fácil para Judas conviver com aqueles onze homens. Se ele contava com algum prestigio nas altas rodas de Jerusalém talvez tenha perdido pelas companhias que ele agora tinha. Judas passou a ver oportunidades que Jesus não via. Na pg 536 Ellen White escreve: “Dessa forma ele manobrava para forçar a uma posição na qual Jesus teria que agir”.

Judas buscou corrigir o plano de Deus. E escolheu um gesto inocente como desfecho de seu plano.

Amigos

Jesus está no Getsêmani e chega um grupo de soldados. Jesus e Judas, face a face. Aqui está o amigo que queria ajudar. E Jesus reconhece isso com tristeza. Era uma noite triste. Poucos instantes ele havia pedido a Pedro, Tiago e João que ficassem com ele. Mas eles dormiram. A cena se repetiu por mais duas vezes. Talvez sonolentos eles tenham achado que estavam sonhando.

Já aconteceu isso com você? Já dormi e respondi sem saber o que estava fazendo. Já me confundi a realidade com meus sonhos. Os discípulos estavam com olhos pesados e dormiram. Sozinho Jesus estava ainda mais triste, nenhum amigo por perto. A necessidade de amigos era evidente, mas eles não estavam lá. Já passou por isso? Sentiu-se sozinho sem ninguém? Há momentos que as lágrimas rolam e não temos ninguém do lado para chorar conosco. As tochas, o burburinho crescente. Jesus acorda seus discípulos mais uma vez.

É chegada minha hora. Para os três dorminhocos que talvez estivessem sonhando com o reino de Deus, acordar daquela forma era estranho. Para Judas o sonho parecia ser mais real agora. Jesus era o filho de Deus, tinha poder ele havia presenciado isso naqueles três anos.

Mas Jesus o recebe de forma amistosa. Mateus 26:47 a 50 – “E estando ele ainda a falar, eis que veio Judas, um dos doze, e com ele grande multidão com espadas e varapaus, vinda da parte dos principais sacerdotes e dos anciãos do povo. Ora, o que o traía lhes havia dado um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar, esse é: prendei-o. E logo, aproximando-se de Jesus disse: Salve, Rabi. E o beijou. Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Nisto, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam”.

Amigo

Um beijo da morte. Beijos matam. Que incoerência a primeira vista. Mas é assim que as serpentes matam. Existe um peixinho de aquário ornamental que é chamado de beijoqueiro. Ele está sempre beijando o outro. E lindo. Os vendedores acabam criando uma propaganda envolvente em torno do peixinho rosa. Descobri que quando eles beijam estão brigando. E faz sentido eles não têm outra forma de se confrontar. Quanta gente ainda mata com boca, com o veneno que dela sai? Quanta gente ainda sai beijando de forma mortífera as pessoas?

Jesus ia morrer. Mas não precisava se cumprir em Judas. Jesus o recebeu dizendo: Amigo, para que vieste?

Essa frase me incomodou muito e durante bom tempo. Todos os evangelistas tratam Judas como um traidor, todos os cristãos tratam Judas como escória. Já vi gente chamada Adolf, apesar de Hitler, já vi gente chamada Nero, Napoleão. Tem gente que dá nome de gente até para cachorro. Mas nunca vi um cachorro chamado Judas. Judas não resistiu às conseqüências de suas escolhas. Ele percebeu que sozinho não conseguiria viver o resto da vida sendo apontado como o traidor. Não seria capaz viver com isso. E a única pessoa capaz de ajudá-lo ele havia traído. Nenhum de nós se identifica com os próprios atos e momentos mais sombrios de nossa história.

Os outros discípulos também traíram Jesus naquela noite. Alguns fugiram. Pedro negou e blasfemou. Jesus chamou Judas de amigo por que o considerava um amigo. Ele não disse nenhuma palavra de condenação para Judas. Judas não entendia por que Jesus não se libertava. Isso o levou ao suicídio. Mais uma vez Judas se precipitou.

Jesus certamente o havia perdoado como perdoou os outros traidores daquela noite. Judas se penitenciou mais do que Pedro, foi ao sinédrio confessou, pediu pela vida de Jesus. Intercedeu em seu favor, se expondo coisa que Pedro não fez.

Judas fora durante sua vida um meio convertido, e agora um inteiramente perdido. Jesus chorou pela perda eterna desse amigo. Que não poderá mais se encontrar com ele como amigo, pelas escolhas que fez.

Que Deus nos ajude:

A submeter a ele nossos planos.
A uma entrega total e comprometida, a irmos além do aparente caminhar em seu ministério.
Que hoje não venha ser o nosso último encontro com Jesus.

Por Willian Lira Felício

Referencias
APOLINÁRIO, Pedro. – Explicação de textos difíceis da bíblia – São Paulo, SP: Instituto Adventista de Ensino, 1990.
BÍBLIA SAGRADA. A. T. 2 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2002.
BAUCKHAM, Richard e HART, Trevor – Ao pé da cruz: reflexões sobre homens e mulheres que viram a crucificação – São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2000.
DeBARROS, Aramis C. – Doze homens e uma missão – Curitiba, PR: Editora Luz e vida, 1990.
HOYLER, S. – A busca – São Paulo, SP: Editora Helen, 1988.
KENDRICK, Michael e LUCAS, Dary – 365 Lições de vida extraídas de personagens da Biblia. – Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1999.
LUCADO, Max – Quando os anjos silenciaram – Campinas, SP: Editora United Press, 1999.
SPANGLER, Ann – Eles – São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2004.
SWINDOLL, Charles R. – As trevas ao amanhecer: fortalecidos pela tragédia e triunfo da cruz – Belo Horizonte, MG: Editora Atos, 2003.
WHITE, Ellen G. – O desejado de todas as Nações – Santo André: SP. Casa Publicadora Brasileira 1979.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

História das Histórias - Lições de um apagão


As luzes começaram a falhar e de repente um grande estouro e tudo ficou escuro. Além do susto inicial causado pelo barulho, os primeiro procedimentos são tomados em relação ao fato de estar no escuro. Alguns minutos depois os olhos já se acostumaram com a falta de luz. Isso, após informar a Companhia de Energia sobre o curto que provocou a queda de energia em todo o quarteirão.

Fiquei conversando sentado no escuro com meu irmão. Começamos a falar sobre a ausência da luz (afinal, não tínhamos mais nada o que fazer). Antes daquele momento estávamos fazendo coisas distintas dentro de casa: Um lendo e o outro assistindo aos gols do domingo, na televisão. Mas ali sentados, aguardando que os reparos fossem feitos, escutamos a movimentação da vizinhança na rua. Fomos até a janela do apartamento.

Todos saiam de casa para descobrir onde havia sido estouro. Alguns garotos aproveitaram a escuridão para aprontar. E começaram a armar algumas pegadinhas na entrada de um Edifício logo em frente ao nosso. As pessoas chegavam com suas lanternas e velas, todas procurando a claridade. Em instantes observei que todos os meus vizinhos estavam praticamente na rua. Com a chegada dos técnicos com equipamento necessário, alguns refletores foram acesos para auxiliar os trabalhos.

E, nesse momento, percebi a pequena multidão que se havia formado do outro lado da rua. Alguns nunca haviam conversado antes. De repente, um casal ficou preso entre a portaria do prédio e o portão da rua. Sem as chaves, eles esqueceram a falta de energia e pediram a alguém que abrisse o portão. E foram lembrados que as portas eletrônicas não funcionavam sem energia.E, já na janela de onde moramos, começamos a conversar sobre nossas impressões naquele instante. Sem luz, ficamos limitados.

A escuridão gera insegurança e as pessoas buscam a luz e o fazem de forma coletiva. E, quando observamos alguém com a lanterna auxiliando outro a retirar objetos do porta-malas de um carro, pensei: “Quem tem luz tem que oferecer ajuda aos outros, sempre!” Em pouco mais de 50 minutos no escuro tínhamos aprendido muitas coisas sobre a luz, o por que do transformador sobrecarregar e desarmar; meu irmão trabalha em uma empresa que fabrica transformadores, padrão de energia e outros equipamentos para o setor.

Mas, também aprendemos a importância de levar luz ao mundo. Quando tudo eram trevas Deus trouxe luz ao mundo Gênesis capítulo 1, versos 3 a 5. A Bíblia afirma que o Criador separou a luz das trevas e viu que a luz era boa. Em Mateus 5: 14 e 16 Jesus orienta para que os cristãos levem luz ao mundo, para que o mundo possa glorificar Seu santo nome. E em João 8:12 Ele, Jesus, declara ser a Luz do mundo. O autor de Atos completou minha reflexão naquele instante. “Eu te pus para Luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra” (Atos 13:47). O mundo está em trevas – completas trevas morais (Isaías 60:2-3). Portanto, consideremos devidamente esta ordem divina: “Dispõem-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor nasce sobre ti” (Isaías 60:1). Pense nisso!

Por: Willian Lira Felício