sábado, 26 de junho de 2010

Igreja: Há base bíblica para planejamento estratégico?

Tenho falado sobre isso durante um bom tempo... muitos anos... bastante tempo... tenho visto líderes religiosos e pastores... que não sabem o que é planejamento estratégico... fazendo reuniões de planejamento estratégico...

Seguem fazendo agendamento de datas, distribuem programas e datas... é cada um trabalhando para um lado... Fazem sempre a mesma coisa e depois gastam tempo falando de união... que precisam todos se unir... como? não sei... se os próprios líderes desconhecem a direção a seguir nesse sentido... como não sei se quero falar nesse assunto mais... encontrei esse presente... Convido você a ler e comentar...

A impressão que se tem a respeito de planejamento estratégico é que seja meramente técnico, aplicável a empresas e contrário ao Reino de Deus. De fato existem diferenças entre ambos. Josué Campanha afirma que ambos falam em “visão” e “missão”. Entretanto, uma grande diferença é que o Reino de Deus tem a “Visão” e a “Missão” de Deus. Esta se relaciona com os propósitos de Deus para a sua igreja, para o seu povo e para o mundo todo.

Portanto, o planejamento estratégico em empresas é a “arte” que promove resultados e lucros. No Reino de Deus se lida com “produtos” não mensuráveis como a fé, a esperança e o amor. Estes dependem exclusivamente do bondoso agir de Deus. São frutos do agir do Senhor e podem acontecer com ou sem estratégias e planos.

A terminologia “planejamento estratégico” parece ter a origem e aplicar-se a arte militar (e por que é aplicada a empresas?), ou a arte sócio-econômica do mundo secular, que visa principalmente lucros e resoluções condicionadas por resultados. Todavia, percebe-se elementos que podem contribuir para a reflexão do desenvolvimento do Reino de Deus. Isto porque se referem a uma caminhada que visa principalmente alcançar o alvo.

Observando a tradição da Igreja

A Igreja Cristã conhece o chamado “Plano de Salvação”. Ele é o exemplo e o resumo do amor de Deus pela humanidade. Ele é dividido em quatro partes:

1) Inicia com a Criação: Vivemos num mundo criado e amado por Deus (Gn 1 e 2; Jo 3.16); 2) Segue com a Queda: Mas, somos pecadores e separados de Deus sem Jesus (Gn 3; Rm 3.23); 3) Reconhecer e confessar: sou pecador e preciso de Jesus como Senhor e Salvador (1Jo 1.9; Rm 10.9); 4) Receber, confessar, e crer em Jesus nos torna filhos de Deus (Ap 3.20; Jo 1.12).

Este é o chamado “fio vermelho” que perpassa toda a Bíblia. O plano maravilhoso de Deus “que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).

Deus, quando criou o mundo, teve um plano maravilhoso que era glorificar o seu nome Santo. A criação teve e tem um alvo que é a vida e a eternidade. Apesar de tudo o que já aconteceu e ainda acontecerá, o plano de Deus se realizará. O céu e a terra passarão, mas a palavra e o plano de Deus não passará, sem que tudo se cumpra (Mt 5.17).

Analisando os acontecimentos da Bíblia

A Bíblia revela e relata eventos consecutivos da realização do Plano e do Propósito de Deus. Analisemos como a Bíblia é um plano que caracteriza metas e alvos, com pessoas que Deus usa para tarefas e em determinadas épocas:

1. Noé – escolhido por Deus para ser uma testemunha. Deus colocou este projeto em seu coração. Foi mensurável com um propósito definido;

2. Abraão – chamado por Deus para formar um povo, cujo plano foi “ser abençoado e ser uma bênção” ao seu povo e aos outros povos. O plano durou durante quatro gerações e durante 400 anos em que o povo de Deus viveu no Egito debaixo da escravidão. José foi um grande líder, com um propósito de Deus no Egito, bem como durante 14 anos em que foi usado grandemente por Deus como um grande estrategista – ele fez um “planejamento sábio”;

3. Moisés foi um líder chamado e usado por Deus. Passou 40 anos na casa de Jetro, 40 anos no deserto com o povo de Israel. Caracteriza etapas que preparavam a caminhada. O episódio do conselho de Jetro é muito lembrado como exemplo de/para planejamento e organização do trabalho no Reino de Deus;

4. Josué foi um grande estrategista, que liderou o povo no cumprimento do propósito e da promessa de Deus para a ocupação das terras da promessa;

5. Davi caracteriza a etapa onde o povo de Israel se estabeleceu e teve paz;

6. Neemias é um personagem que marca a época da reconstrução do muro e da volta do povo a sua pátria. O livro de Neemias retrata um propósito específico do plano e da fidelidade de Deus. Ele mesmo foi um planejador e desenvolveu um plano com etapas para alcançar as metas propostas;

7. O silêncio de 400 anos (período inter-bíblico) caracteriza o propósito de Deus para que a Mensagem de João Batista tivesse repercussão fosse impactante;

8. O Senhor Jesus Cristo, realizou a sua missão durante três anos, segundo a visão completa de Deus, trazendo valores e princípios que jamais podem ser mudados. Estes servem para refletir um planejamento para a atualidade – O que queremos e o que devemos?

9. Na Igreja Primitiva, propriamente em Atos dos Apóstolos, percebe-se uma visão muito clara do propósito de Deus e as metas para alcançar – primeiro em Jerusalém, depois na Judéia, na Samaria e até os confins da terra (At 1.8). O livro desenvolve a estratégia a ser realizada durante a segunda metade do primeiro século da era cristã. O primeiro item do planejamento estratégico da igreja primitiva era a compaixão e o amor pelas pessoas. Sua estratégia era se aprofundar na doutrina, ter comunhão, orar, ajudar os necessitados e louvar a Deus (At 2.42-47). O apóstolo Paulo teve um ministério com a visão estratégica de alcançar os confins da terra. O evento de Atos 6 mostra a necessidade de planejamento e nova organização. É marcante o planejamento que fazem.

Algumas considerações bíblicas que remetem a ações de planejamento:

Assentar-se e calcular/planejar (Lc 14.28-33). Ser fiel e alcançar o propósito (Lc 12.42-48; 8.18). Reagir diante da necessidade e crise (Lc 16.1-8). Parábolas que remetem a consciência de desenvolver com cuidado e zelo o Reino de Deus, muitas vezes com caráter de negócio (Mt 13.44-45). Planejar e lançar a rede (13.47-52). Planejar e aproveitar as oportunidades (Mt 25.14-30). Negociar até que Jesus volte e fazer render (Lc 19.11-26). Estratégia do envio e da tarefa dos discípulos/lideranças (Lc 9.1; 10.1; Mt 28.18-20; At 1.8).

As ações no Reino de Deus, normalmente, iniciam pequenas, mas se desenvolvem até abrigar os necessitados e atenda carências (a semelhança do grão de mostarda e o fermento - Lc 13.18ss). Os resultados nem sempre são vistos e nem mensuráveis. Eles têm a promessa na eternidade.

Conclusão

1. Os mensageiros e servos de Deus sempre apontaram para o plano e o propósito de Deus. As ações e metas se realizaram e cumpriram o propósito maior do amor e da graça de Deus. Este propósito de Deus ainda está em aberto e se concretizará na volta de Cristo e na eternidade.

2. A Bíblia de fato não fala nos termos planejamento estratégico, mas percebe-se que ela é um plano muito bem planejado, que se realiza a cada momento que passa. Deus realiza o seu plano. O propósito é estar dentro do propósito de Deus. E a Bíblia oferece elementos que refletem que ela mesma é um “planejamento estratégico”, que não se baseia na técnica, em resultados e lucros, mas na visão, missão e valores/princípios do Reino de Deus.

3. O risco da igreja cristã na época da pós-modernidade é não conhecer a fundamentação bíblico-teológica e copiar do mundo secular o seu modelo de planejar (ou simplesmente agendar) e se organizar. O contrário acontece quando a organização, ou mesmo a comunidade local, se exime de não planejar e se organizar. Uma pode ser tão perigosa quanto à outra.

4. O atual desafio da igreja cristã é ouvir o falar e pulsar de Deus pelas pessoas que vivem na escuridão e perdidas no mundo que nos cerca. É estar atento para a oportunidade que Deus dá para redescobrir o propósito eterno de Deus, que compromete para realizar tarefas planejadas e cumprir o mandato de Deus. Desta forma, cumprir o mandato de Jesus até que ele volte.

5. O planejamento estratégico efetivo é aquele que ousa acreditar no propósito eterno de Deus, se dispõe a aprender dos grandes feitos de Deus, não se intimida diante de fracassos e contrariedades, mas acredita em ser agente de mudança e transformação.

Leitura complementar:

CAMPANHA,Josué. Planejamento estratégico. Vida. São Paulo, 1999.
SCHWARZ, Chistian. O desenvolvimento natural da igreja. Editora Evangélica Esperança. Curitiba, 1996.
FONTEQUE. José Valdir. Planejamento estratégico. Fonteque. Londrina, 2004.

Werner Lickfeld

Um comentário:

  1. Bom dia Willian,

    Creio também que nada sem planejamento vai para frente, deixar que as coisas aconteçam por acaso "deixe a vida me levar", não é da vontade de Deus.

    Comparando a evangelização de Cristo com a Igreja de Bandeirantes, temos alguns aspectos a observar:

    1º) Os judeus estavam sem rumo (1º veio João Batista e depois Jesus Cristo para dar o caminho certo para esta nação);
    2º) A evangelização começou pelos de casa, só então para alcançar, primeiro a circunvizinhança (Samaria), depois os confins da terra;
    a) Para se alcançar os de casa, havia conhecimento de quem eram estes de casa (Primeiro o grupo de 12, depois alcançando os 70);
    b) Ocorria visitação, Jesus não ficava parado no templo, buscava as pessoas visitando; ex: buscou Pedro e André na pescaria, foi conhecê-los de perto, seu ofício, o que fazia e como fazia, o seja relacionamento; assim a busca dos apóstolos foi pelos relacionamentos;
    c) Jesus se preocupava com cada um de sua Igreja, os apóstolos e discípulos);

    3º) Preparação dos de casa para evangelizar, primeiramente os de casa;
    4º) Capacitação (Igreja de Atos) para evangelização (Batismo do Espírito Santo) do alvo externo, os gentios;
    5º) Recepção dos recém conversos, dando-lhes atenção, ensino, suporte e especialmente amor, nunca os condenando, mas mostrando-lhes o real caminho a ser seguido.

    Creio que é uma síntese do Planejamento de Cristo para a Igreja, que Deus nos possa ajudar.

    ResponderExcluir