sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Maçã Proibida

Embora o senso comum afirme que o fruto proibido por Deus, para Adão e Eva, no jardim do Éden, tenha sido uma maçã, tal afirmação não possui nenhuma base bíblica que a sustente. Assim, o título deste artigo não é relacionado ao fruto que Deus proibiu aos nossos primeiros pais, mas ao fruto que meu dentista me proibiu de comer outro dia.
Após me consultar com um dentista em seu consultório odontológico, recebi dele a orientação que deveria me abster de comer alguns alimentos e, dentre eles, a maçã. No momento senti uma profunda tristeza como se tivesse perdido uma parte essencial da minha alimentação. Tal sentimento de perda não se sustentava na prática, pois, sinceramente, não sou de comer maçãs (nem lembro a última vez que comi uma maçã).
Um momento depois de sentir o sentimento de perda parei para refletir a respeito do motivo pelo qual o havia sentido já que, como mencionei antes, a maçã não está entre as minhas frutas prediletas. Logicamente que tal sentimento poderia ter surgido por vários motivos, mas um deles me pareceu bastante provável: o gosto do proibido.
Cada vez mais ouvimos histórias de pessoas relatando que fizeram algo apenas por aquilo ser proibido: algumas pesquisas revelaram que boa parte dos usuários de drogas iniciaram seu uso pela curiosidade de praticar um ato proibido; jogos proibidos são muitas vezes os mais procurados, principalmente, entre os jovens; homens e mulheres em relações extraconjugais admitem sentirem-se atraídos pelo desejo de cometer um ato proibido; adolescentes escolhem parceiros afetivos diferentes da recomendação de seus pais muitas vezes para praticar o ato proibido. Estes e outros exemplos confirmam como o desejo pelo proibido está presente na mente humana.

A pergunta que nos surge, então, é: por que desejamos o proibido?

É interessante que, antes de tentarmos responder a esta pergunta, comentemos a respeito de outro desejo presente na mente humana: o desejo por aquilo que não mais se tem. Algumas pessoas têm relatado que não davam valor a algo até que o tivessem perdido: ex-namorados dão valor à sua antiga companheira apenas quando esta resolve deixá-los; profissionais dão valor ao antigo emprego apenas quando não mais o têm; filhos dão valor aos seus pais apenas quando estes já estão repousando o sono da morte; pacientes odontológicos dão valor ao sabor da maçã apenas quando seu dentista os proíbem de comê-la.

O desejo pelo proibido e o desejo por aquilo que tínhamos e não temos mais estão relacionados de forma estreita em nossa mente e, quem sabe, em nosso espírito.

Para a psicanálise, apresentando de forma bem simplificada, todos nós temos uma falta em nosso ser. Essa falta é positiva no sentido de que é através dela que fazemos tudo o que fazemos: comemos, bebemos, dormimos, estudamos, lemos e escrevemos artigos, namoramos, etc. a fim de preencher uma falta que existe dentro de nós.

Como não podemos ter o prazer absoluto do preenchimento completo da falta (pois quando não faltasse mais nada sentiríamos falta de sentir falta) nos saciamos com pequenos momentos prazerosos na tentativa inconsciente de preencher este vazio.

Assim, talvez, o proibido nos pareça inconscientemente uma boa tentativa de preencher esse vazio da mesma forma que ao perdermos o que tínhamos, inconscientemente estamos mais longe de preencher o vazio que existe em nós.

A Bíblia, por sua vez, conta que nossos primeiros pais viviam de forma perfeita no jardim do Éden. Interessante notar que nem mesmo nossos primeiros pais eram completos, isto é, sem falta: eles possuíam muitas coisas a aprender e viver. No entanto, embora incompletos, nossos primeiros pais não sentiam o desamparo causado pela falta, pois possuíam acesso direto e constante a tudo o que lhes poderia preencher.

Exemplificando, é como possuir fome ao lado de um banquete ou sede ao lado de uma bela fonte de água, embora falte comida e água, respectivamente, em nosso organismo, esta falta não nos incomoda já que podemos saciá-la a qualquer momento.

Em um determinado momento, no entanto, segundo a Bíblia, a Eva é apresentada toda a sua “carência” ao lhe ser afirmado, pela serpente tentadora, que lhe faltava ser como Deus. Eva tinha, então, uma escolha a fazer: saciar a sua falta de completude no relacionamento direto com Deus ou tentar preencher o seu vazio por seus próprios esforços comendo o fruto proibido por Deus que, segundo a serpente, seria capaz de preencher o vazio dela.

É importante afirmar que os mecanismos mentais de Adão e Eva, provavelmente, não eram como são os nossos, no entanto, a escolha parece ser a mesma: suprir o vazio do ser através do relacionamento com Deus ou buscar o preenchimento do vazio através de esforços próprios.

O filósofo Kierkegaard afirma que o ser humano é um ser que busca a completude que, segundo ele, advém da síntese (relacionamento) entre o ser finito e o ser infinito, isto é, entre o homem e Deus. Para o filósofo, apenas no relacionamento com Deus, o homem pode se completar.

Neste momento, podemos entender que, de fato, existe uma necessária incompletude em nosso ser, pois, a partir dela é que vivemos nossa vida cotidiana. No entanto, tal incompletude causa uma sensação ruim de desamparo todas as vezes que tentamos completá-la através de nossos próprios esforços visto que a única forma de completá-la está em um relacionamento direto com Deus.

Desejamos o proibido, pois inconscientemente imaginamos que podemos suprir nossa falta existencial com tais atitudes; desejamos o que já não temos, pois temos a sensação inconsciente que ao perdê-lo estamos mais distante do preenchimento deste vazio; as conseqüências de buscar preencher o vazio através de nossos próprios esforços por atos proibidos nos leva à terrível sensação de desamparo.

Apenas o relacionamento direto com Deus pode suprir a falta assim como a água ou o alimento para quem tem sede e fome. Ao nos relacionarmos com Deus, não iremos preencher todo o vazio que existe em nós, pois continuaremos sentindo desejo de comer, beber, estudar, namorar, trabalhar, etc. mas, assim como a fome  não atormenta aquele que está diante de um banquete ou a sede não atormenta aquele que está diante de uma fonte de água, nossa incompletude não mais nos incomodará na presença de Deus.

Afinal, como disse Davi: “Tu me farás ver os caminhos da vida; na Tua presença há plenitude de alegria, na Tua destra, [há] delícias perpetuamente” (Salmo 16:11).

Por: Cláudio Willians

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